- Vem, meu menino vadio; Vem, que essa branca não tem tempo mais para as coisas de antes;
- Ah, minha branca tem tempo demais, o bom nisso tá no antes disso; tá na arte de imaginar, de tocar, cheirar, beijar; tá no prazer de desnudar em pensamento; de descobrir lugar pra onde se quer chegar. Isso é que faz ser bom!
- Tu num tem idade nem experiência para tar dizendo essas coisas, sem vergonha. Isso é discurso de fetichista, de afetado, não é discurso de muleque de fralda que nem você.
- Muleque de fralda que a velha aí quis pegar pra cuidar, e cuida tão direito que até...
- Velha é sua mãe, seu michezinho de merda; dou dinheiro, roupa e você nem para me agradar serve.
- É, é isso que eu sou para você, um objeto, um consolo. Você somente se esqueceu que seu brinquedinho tem sentimento e amigos.
- Amigo o quê? Um bando de veado tosco. Se o seu conceito de amizade for "pessoas para falar mal de você e sair consigo". Grandes amigos você possui.
- Cala a boca. Pelo menos eu tenho quem falar mal de mim. E você, que nem amigos tem? Ou eu nunca notei que nem sua família nota a sua existência. Até o namorado tem que pagar.
- Filho de uma puta; minha família é um covil de lobos, só esperando a hora de morrer para abrir meu testamento; merda de amizade; eu tenho analista e psicólogo para quê? Quando você ficar mais velho, se é que você vai ficar, com a quantidade de droga que toma...
- Droga que você paga!
- Pago um caralho; você vive pegando dinheiro da minha bolsa seu ladraozinho de merda!
- Você deixa pra eu pegar, sua vadia; sabe que sem dinheiro você não me segura nessa sua casa.
- Que petulância; você deveria usar essa bravura toda para dizer a seus pais que largou o curso de direito para dar o cu, quer dizer, fazer artes cênica.
- Sua preconceituosa de merda! Fala isso da boca pra fora, bem não sei que quem tá patrocinando meu grupo é você. Fica me assistindo escondida e depois mostra desprezo.
- Como tu te achas! Só estou contigo porque não arranjei pau maior e mais barato pra pagar
- Verdade. Eu significo pra você apenas isso...
- E nem isso mais...
- Você não contribui, pode ter certeza.
- Então por que continua? Não sabe que pode arranjar velha melhor, ganhar mais... Por que ainda está comigo?
- Eu devo gostar de sofrer. De fazer o papel do filho inseguro! Por falar em filho, cadê aquele seu filho de merda?
- Não fala do meu filho, seu miserável... Você não sabe de nada dele... Idiota!
- Não precisa chorar por causa disso. Aquele menino nunca te demonstrou nenhum sentimento.
- Claro que ele me despreza. Quem gostaria de ter uma mãe viciada, que mora com um menino de sua idade e o paga para ser seu amante,você não sabe nada sobre sua vida.
- Também não é assim. A gente sempre tentou que ele fizesse parte de nossa vida...
- Que nossa vida? Buceta de nossa vida. Nossa vida dura enquanto eu receber dinheiro da herança de papai.
- Eu não estou com você pelo seu dinheiro;
- Então está pelo quê? Pela minha vida de merda? Pela minha solidão? Pelo meu desprezo pelo mundo?
- Eu estou aqui pela sua poesia, porque você me ensina a viver.
- Então eu vou te ensinar algo para você nunca mais esquecer. Pega aquela arma no armário e vamos brincar de roleta russa.
FIM
- Vem pra cama, e vamos deixar de papo de novela das oito. É melhor.