quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Carta para Adão.

Morte de um imbecil.

A cidade já não me olha com espanto.
Pudera, são 2 da manhã e não há ninguém na rua que me julga.
Passo meandrante por entre as eternas sombras dos grandes prédios
 e tudo é muito mais do que novo para meus olhos cegos.

O barulho de um raro automóvel rompe o intrépido silêncio noturno.
 Até quando essa cidade será tão calma?
Me pergunto...
Não respondo!!!
 estou muito além de tudo para estabelecer linhas de raciocínios
 sem me perder e me ganhar em fluxos de pensamentos que me fazem vivo.

Tenho nas mãos um celular
Não parece ser meu, não me lembro de ter um celular.
Mesmo assim seguro como quem segura algo importante,
É como se houvesse um objetivo para toda a minha inconsciência, delirante.

Delirante, vagando pelo incerto, temeroso com a vida
Ando sem prumo nem rumo a espera de encontrar um caminho familiar
Ou alguém que me ajude ou um lugar que me acolha ou uma ponte que me jogue. Uma avenida.
Algo de ruim aconteceu comigo, mas estou muito além de tudo isso.

Lembro-me de beber, de viver, de querer morrer.
Mas tudo mais passa como uma vaga lembrança, uma neblina.
Esse desconforto mistura-se com os efeitos da bebida
E me sinto enojado da minha existência, do ponto crítico ao qual cheguei.
Se fosse fácil a vida a gente não teria tanto tempo pra vivê-la, morrerei!

Agora me lembro. Levei uma facada!
Sinto o sangue coagulado em minhas costas
Tento tomar fôlego, mas parece que perdi muito sangue pelo caminho.
Recife se apossou do meu vermelho sangue.

Tento conter meu sangue,
Aquela situação me deixa bêbado de viver.
Mas não consigo sequer erguer os braços
Como ninguém acode um pobre esfaqueado?

Levei um tombo. Bati em um poste.
Parece que nem ele sente pena de minha vivência.
Ele deve de estar interessado em outros anjos.

Agora, com as pernas fracas demais para erguer este monte de carne suja,
Tenho que engatinhar até a rua mais próxima de algo movimentado.
O Recife parece ter me abandonado,
gozado do meu sofrimento.

Acho que não consigo sequer erguer a cabeça.
E não tenho forças para provar o contrário.

Nada de vida me acode, nem ao menos...

Não. Não conseguirei sobreviver.
Meu Deus, me abandonaste na hora em que de ti mais preciso.
Espere, não consigo ao menos abrir os olhos para morrer admirando as estrelas.
Deixe-me pelo menos morrer em paz! Oras!

Algo de estranho acontece. Ouço, se é que ainda ouço, vozes.
Vozes veludosas vozes vindas dos ventos.

Tento com todas as forças abrir os olhos para ver quem me dá esperança de viver. Não consigo.
Este ser me acode e questiona a minha consciência, mas meu cansaço fala mais alto.
Eu não tenho tempo para questionamentos, penso.
Sinto uma lágrima cair sobre minha face.
Este ser chora a minha previsível morte.

Tento novamente vê-lo.
Abro os olhos mas não identifico sua fisionomia
Só bem vejo uma parte de seu corpo.
Nada mais me faz ter a sede de viver.
Tento respirar, mas até nisso a morte me fez ter preguiça.

Morrerei, mas pelo menos a imagem que ficou em minha cabeça
Foi a dos peitos de um ser maravilhoso.
Deus abençoe esse corpo e me deixe vagar pela eternidade.