Éramos tão jovens, nem 6 anos tínhamos. Nem sabíamos, ao certo, o que estávamos fazendo, mas foi de tal doçura que até hoje não consigo, nem quero, esquecer desse momento. Essa lembrança sempre me atormentou. Primeiro, porque não era certo, para alguns continua não sendo, beijar pessoas do mesmo sexo. Mas nós éramos tão jovens que, em nossa pureza, fizemos porque nos amávamos. Daí por diante, só possuo vagas lembranças suas. De sua perda.
De sua morte.
Como você morreu cedo!
E, de alguma forma, algo em mim também acabou morrendo.
Sempre carreguei esta história comigo. Sempre foi muito difícil dizê-la. Era proibida.
É proibido amar ainda.
Sempre tentei lutar contra você. Contra o que pra mim você representou. Era cedo, mas, desde pequeno, sabia que seria para sempre diferente. Mas nunca consegui lidar bem com este "fardo". Ser diferente é complicado. E em todas as relações que tive e fingi ter, nunca consegui, por mais que eu beijasse ou tivesse tantos momentos românticos quanto era necessário, amar como eu te amava. E isso sempre me atormentou. Sempre me assolou.
A pouco tempo, lembrando de nossa história, perguntei a todos sobre o que realmente aconteceu consigo. Ninguém soube me responder. Não sei se por mero esquecimento ou porque essa história não aconteceu. Você pode ter apenas se mudado. Ido morar em outra cidade, quem sabe Recife. Quem sabe? De sua vida, só eu pareço lembrar. Meu primeiro amor.
Por coincidência, tive diversas palestras e acesso a assuntos de análise da psique que demonstraram que nossa mente é muito falaciosa. Que muitas de nossas ditas lembranças são apenas estórias que inventamos. E pensei: talvez essa história pode não ter acontecido. O beijo, sim aconteceu. Ele é muito palpável para ser mentira. E há anos eu escrevo sobre ele, confesso. Como se me tivesse sido delegado nunca esquecê-lo. Mas talvez eu inventei a sua morte para lidar com sua ausência. Preencher uma lacuna sua em minha vida.
Hoje, sou livre. Para amar. Estou me permitindo ser feliz, conviver com minhas diferenças. Parece até exagero, talvez o seja, mas saberei quem é a pessoa certa em minha vida no momento que eu sentir o que por você senti. Porque eu sei que o que eu sentirei é amor, de verdade. Você morreu. Mas, mais do que isso, continua vivendo comigo. E para não esquecer você, vou eternizá-lo.